"Assim magro, molhado, meio curvo de magreza, frio e estranhamento." (CFA)
Contido, dissimulado, observo lento o passar dos dias por detrás da figueira, que imagino acumular mais anos do que meus dedos possam contar. Sabe, se você olhasse bem de perto, talvez tivesse a impressão de que é uma figueira muito familiar. Mas o que aparentemente você não sabe é que vez ou outra ela observa a você também. Claro que, lá no fundo, cercada por colunas de cimento e cercas enferrujadas, fica quase impossível ocupar-se com algo que não seja observar pessoas. Mas, cá entre nós, a figueira bem que gosta de olhar pra você. Ou seria por você? Eu não sei, porque ela nunca me diz, ela nunca diz coisa alguma às pessoas que possa ferir ou magoar. Tenho pensado que deveria pedir a ela algum dia como se faz, isso de não ferir, já que ferimos tanto. Mas não peço nada. Às vezes tenho até a impressão que a figueira se entristece com as histórias que conto, mas que não demonstra quando há sol porque sabe que não há nada mais verdadeiro que o reflexo de um olhar. Por isso, quando há chuva, e a água escorre pelo seu tronco miúdo, mas extremamente forte, percebo ao correr pra debaixo das colunas - e disso mal sabe ela - que torna-se solitária e pensativa a observar o céu. E é então que algumas de suas folhas caem, encobrindo figos maduros que imagino amanhã estarem podres, quando lembro, também solitário e pensativo, que outra vez não terei o que comer.
Amanhece, o sol bate na minha cara suja e molhada, e por um momento quase não sei dizer onde estou. Com o esforço necessário de todos os dias, levanto-me e tento em vão encontrar alguns figos inteiros, quando uma gota de água cai sobre meu rosto e posso sentir com culpa que se dói toda, a figueira. Uma culpa lavada, mas com o mesmo peso. Afasto-me, finjindo não prestar atenção, e da calçada posso vê-la a seduzir passarinhos e abelhas com seu cheiro adocicado, quase contente outra vez. Penso rápido que não se pode lutar contra a própria essência, e ao virar o rosto sei que me observa, assim como um a um dos que por mim passam. Também sei que no fundo ela gostaria de dizer que sempre existe uma solução para a pior das dores. Mas não fala nada. Só fica lá, balançando o dia todo.
Lembra quando você me dizia que tudo ia passar, que era só uma questão de tempo? E então eu puxava o gatilho com medo. Quando você me dizia que eu só precisava me acalmar, e não pensar em mais nada, que o sono viria leve e fácil? E eu tomava aquelas cápsulas. Lembra quando você pegava na minha mão e olhando nos meus olhos dizia com toda a convicção do mundo que tudo iria ficar bem? E eu dormindo no pé da figueira todo esse tempo e pensando. Eu acho que a figueira fica triste quando chove e você não pode correr comigo pra debaixo das colunas. Acho que se aborrece com os figos que oferece a você e apodrecem no chão. Quando me olha de canto ganhando moedas na rua certamente deve pensar que se você estivesse comigo eu não precisaria inventar histórias o tempo todo, porque nós teríamos as nossas histórias pra contar a ela. Acho que ela gostaria de dizer a você, e somente a você, algumas coisas boas e talvez até más pra que você pudesse lembrar durante a sua travessia. Pra que não se doesse tanto, e nem à ela. Mas não fala nada, a figueira.
Você realmente deveria conhecê-la.
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