Monday, January 15, 2007

Naquele dia ela parou de chorar

Sem nenhum aviso, apenas parou de chorar. Ela acordava todas as manhãs antes que ele abrisse os olhos. Já se acostumara, fazia por pura inércia, rotina doméstica. Levantava, lavava o rosto, penteava os cabelos, sempre do mesmo jeito. ele acordava com o cheiro de café impregnando as paredes, olhava o relógio, era sempre cinco e meia. Não se olhavam, ao final do café amargo e preto, limpava a boca com a toalha de mesa, pousava-lhe um beijo na testa e saía, igual a todos os dias. Quando morreu o primeiro filho, pararam de se olhar. O menino, de dois anos, afogara-se na banheira. ele a culpara, ela se culpou, os olhares silenciaram.

A outra filha não percebera, era surda e o silêncio nunca a incomodara, tampouco mudara o desprezo que os pais sentiam por ela. Assim passaram quatro anos, em silêncio profundo. ouvia-se apenas o canário cantando e ela a soluçar. Chorava todas as tardes, por horas, até que ele chegasse, beijasse-lhe a testa e não a olhasse. Chorava por estar morrendo por dentro, definhando aos poucos. Chorava por não conseguir gritar. Naquela manhã, ele acordou às cinco, antes que ela levantasse. Lavou os olhos, fez a barba e chorou, chorou até que os olhos cansassem. Ela não levantou, ele não tomaria o café amargo de sempre. Quando ela saiu do quarto e olhou pela janela, ele estava pendurado na árvore do quintal, pelo pescoço. Vestia o terno do casamento, penteara os cabelos e se perfumara. Foi a primeira vez em tanto tempo que ela o olhava nos olhos, agora sem vida. A menina, surda, não ouvira o pai entrar no quarto. Quando deu por si, sentiu o peso das mãos dele sobre o seu pescoço, apertando com toda a força. Era feia, e tanto o pai quanto a mãe preferiam que ela tivesse se afogado e não o menino. Naquele dia ela parou de chorar. Guardou o bule e o coador de café, e sentou-se à porta da casa, esperando que não só as lágrimas, mas que o resto de si secasse. Lembrou apenas do primeiro olhar que ele dirigiu à ela, e esperou.

No comments: