Sem nenhum aviso, apenas parou de chorar. Ela acordava todas as manhãs antes que ele abrisse os olhos. Já se acostumara, fazia por pura inércia, rotina doméstica. Levantava, lavava o rosto, penteava os cabelos, sempre do mesmo jeito. ele acordava com o cheiro de café impregnando as paredes, olhava o relógio, era sempre cinco e meia. Não se olhavam, ao final do café amargo e preto, limpava a boca com a toalha de mesa, pousava-lhe um beijo na testa e saía, igual a todos os dias. Quando morreu o primeiro filho, pararam de se olhar. O menino, de dois anos, afogara-se na banheira. ele a culpara, ela se culpou, os olhares silenciaram.
A outra filha não percebera, era surda e o silêncio nunca a incomodara, tampouco mudara o desprezo que os pais sentiam por ela. Assim passaram quatro anos, em silêncio profundo. ouvia-se apenas o canário cantando e ela a soluçar. Chorava todas as tardes, por horas, até que ele chegasse, beijasse-lhe a testa e não a olhasse. Chorava por estar morrendo por dentro, definhando aos poucos. Chorava por não conseguir gritar. Naquela manhã, ele acordou às cinco, antes que ela levantasse. Lavou os olhos, fez a barba e chorou, chorou até que os olhos cansassem. Ela não levantou, ele não tomaria o café amargo de sempre. Quando ela saiu do quarto e olhou pela janela, ele estava pendurado na árvore do quintal, pelo pescoço. Vestia o terno do casamento, penteara os cabelos e se perfumara. Foi a primeira vez em tanto tempo que ela o olhava nos olhos, agora sem vida. A menina, surda, não ouvira o pai entrar no quarto. Quando deu por si, sentiu o peso das mãos dele sobre o seu pescoço, apertando com toda a força. Era feia, e tanto o pai quanto a mãe preferiam que ela tivesse se afogado e não o menino. Naquele dia ela parou de chorar. Guardou o bule e o coador de café, e sentou-se à porta da casa, esperando que não só as lágrimas, mas que o resto de si secasse. Lembrou apenas do primeiro olhar que ele dirigiu à ela, e esperou.
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