Saturday, March 24, 2007

Intervalo Inesperado

"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. A noite ultrapassou a si mesma, encontrou a madrugada, se desfez em manhã, em dia claro, em tarde verde, em anoitecer e em noite outra vez. Fiquei. Você sabe que eu fiquei. E que ficaria até o fim, até o fundo. Que aceitei a queda, que aceitei a morte. Que nessa aceitação, caí. Que nessa queda, morri. Tenho me carregado tão perdida e pesada pelos dias afora. E ninguém vê que estou morta. "
Sempre você, Caio...




O espelho reflete uma face de maquiagem borrada, olheiras fundas, leve contração das sobrancelhas. Sentada na beira da cama, o aço nas mãos. Examina a cicatriz já antiga, um simples fio no pulso. Aperta. Sente as pulsações. O frio da lâmina entre os dedos. A cicatriz, lembrança de outra queda. Da casa ao lado chegam os sons desfeitos de algo que deveria ser música. Um vento indeciso de madrugada entra pela janela, está sentada na cama, corpo nu, pés descalços, costas curvas. A lâmina vibra entre os dedos. Nenhum pensamento. Atenção fixa em si mesma.



Dobra os ombros, como se chorasse. E não corta. Joga a lâmina pela janela, os braços se cruzam, enlaçam os joelhos, a cabeça afunda entre as pernas. Não chora sequer. No cinzeiro, o cigarro esquecido queima. Um fino fio de fumaça sobe aos poucos indeciso, adensando o ar que se enche de olhos, de mãos, de gestos incompletos, vozes veladas, palavras não formuladas. Sem compreender, vaga entre a fumaça e tomba. Como um cego, vendo apenas para dentro.

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