E não deixa de ser verdade, no entanto mesmo assim ainda penso que é bom viver, e também não acho lugar-comum dizer que a felicidade está nas pequenas coisas, mesmo que antes de chegar ao verso final já tenha me desintegrado e que arrasada pelas frustradas mas doces tentativas de continuar acabasse na beira do abismo com Holden Caulfield*, mesmo assim fico feliz quando penso que não desisti, que não desistimos, apesar de todo o cansaço que a vida impõe. É extremamente desvirtuoso viver em uma época onde tudo já passou, ficamos com a sensação de que as cortinas se fecharam, trancaram as portas, atearam fogo no palco, e a vida de repente se fechou pra nós. Kurt estourou a cabeça, Janis morreu de overdose, e depois Hendrix, e depois Morrison, e Vicious, Barret, Bonhan, Raul, as urgências, as orgias, e então a Aids, levando Cazuza, Renato Russo, levando a nossa literatura, Michel Foucault, Caio Fernando Abreu, Derek Jarman, Hervé Guibert, Cyrill Collard, o ilimitado se tornando inatingível. Sobrou para nós a difícil tarefa de seguir em frente, mesmo não sendo seguro, mesmo que doa profundamente. Old-fashion, queers, darks, epidemia discursiva.
* The Catcher in the Rye, J. D. Salinger
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