Thursday, September 02, 2010

Um metro e setenta e sete de Sol

"Tenho agradecido por estar vivo
e ter andado por todos os lugares onde andei
e ter vivido tudo o que vivi
e ser exatamente como eu sou"
C.F.A



Começa pela manhã, quando antes mesmo de abrir os olhos, a coisa já está lá.

Deitada: penso e acredito que por mais tardio que possa ser, fora necessário que eu passasse antes por muitos estágios para que hoje pudesse reconhecer o que sinto, e reconhecendo, pudesse aceitar. Você poderia dizer que tem sido recorrente demais, esse tipo de pensamento, e sei que todos os dias encho teus olhos e tua cabeça com todos esses meus informulados sentimentos, ou talvez sejam até formulados demais, não sei, mas quando repito que te amo e que te quero muito é porque nesse momento não há nada mais lindo que eu seja capaz de sentir.

Lembrando do dia, mês e ano em que acordei: enquanto procuro por pastas e canetas, ou às vezes por isqueiros e moedas, retomo mentalmente a última frase dita, e entre um gole de chá de maçã, ou camomila, para despertar ou para acalmar, ou mesmo só pelo costume, olho pela vidraça esfumada, além e acima dos morros e nuvens, e penso algo como "é lá que está o meu destino", lá onde talvez o sol não nasça dessa forma turva, nesse tom nublado-acizentado, e penso que talvez seja culpa do sol, eu não ser uma pessoa que exale otimismo, talvez. Ou não, sou bastante otimista até, faço muita gente sorrir só pela minha presença, e quando olho pro relógio é hora de bater em retirada, sete e quinze da manhã é oficialmente a hora do dia em que mais tenho fé - em mim, em você, nas pessoas, na vida.

Pulando degraus como se pulam poças na chuva: enquanto acordamos aqui, alguém no outro lado do mundo está indo dormir, mas eu sei de alguém que não está do outro lado do mundo e mesmo assim costuma dormir quando estou acordando, ao apressar o passo olho para o relógio digital no meio da cidade que quase sempre marca 7:33, sorrio ao lembrar que hoje, mais do que nunca, pertenço a alguém, e gosto dessa palavra - pertencer. Quero pertencer, sinto-me amanhecendo.

"Proibido fumar": é a placa pra qual olho cinco vezes por semana sempre no mesmo horário, enquanto fumo lentamente, e então por alguns minutos penso em como sou deslocada, porque não é uma escolha, é um jeito de ser... Retomando os livros, faço corações no rodapé das páginas, coloco um R no meio, fico pensando no coração e em como gostaria que, como num passe de mágica, alguém batesse na porta e então a professora falasse "Julia, é pra você", e então você estivesse lá, e então você estaria aqui; várias e várias vezes por dia tenho esse mesmo desejo.

Faltando uma hora pra falar com a pessoa que faz pulsar viciosamente meu coração: caminho distraída, é algo bastante positivo que as outras pessoas não tenham falta de coordenação motora como eu, porque poderia resultar em acidentes, visto que se olho pra baixo não vejo o que está a minha frente, e se olho pra frente é apenas fisicamente, pois minha mente encontra-se em outro lugar. Assim, essa hora do dia, entre 12:10 e 12:20, são comuns os esbarramentos, tropeços, cotoveladas, etc.

Telejornal do almoço e receitas de comidas: hoje eu descobri que cebola piquê é meia cebola cortada junto com três cravos e uma folha de louro, fiquei achando o máximo. Grande coisa, pensei depois, lembrando que ainda tenho muito o que aprender quando se trata de cozinhar, ainda mais perto de você, mas então lembrei também que não se deve menosprezar nada que soe a uma tentativa; seja ela qual for e para quê. Afinal, é por isso que existimos, eu e você: não existe melhor exemplo de uma tentativa em direção ao amor do que o nosso.

Mensagens offline, postagens de blog e palavras amorosas: é assim que sou recebida todos os dias, e é por esse momento que espero ansiosamente desde quando abro os olhos ao despertar, e é quando sinto também que estou um dia mais perto de conhecer aquilo que me convém chamar de "A Grande Diferença", ou de "A Grande Diferença de Toda a Minha Vida". Volto a sorrir, enquanto o tempo volta a andar, e embora passe rapidamente é o que tem me mantido confiante, poder tê-lo naqueles instantes ali comigo, mesmo que não fisicamente, para que eu possa, de certa forma egoísta talvez, suprir minha carência diária de todas as coisas. Coisas essas que, quando suas, passam a ser minhas, e coisas minhas que você transforma, mas que no fundo sempre foram também suas. Hoje são nossas, hoje a história com final feliz que conto é a minha, hoje a pessoa que habita meus pensamentos é aquela a quem meu coração sempre pertenceu. É aquela a quem eu pertenço.

Hoje, sei que não preciso de mais do que um metro e setenta e sete de puro sol.
Hoje, e para sempre, sei que não preciso de nada além de você.


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