Anne Sexton
E tudo o que fica em mim são coisas que doem e não são aliviadas pelo ato de chorar, coisas que talvez bem no fundo não expressem nada, só um tipo de fraqueza ou doença. Certamente eu daria meu melhor sorriso para sentir algum alívio, mas não sinto nada além de um incômodo no peito. Tento prestar atenção, mas não entendo o que estão falando comigo, se faz frio ou calor, se é calor eu noto porque não preciso de tantas roupas e no frio me pego encolhida pelos cantos, mas ainda assim não entendo e não tenho como falar do que realmente incomoda, dar um nome ou dimensão, tem um tumor crescendo e comendo o coração, avolumando o peito e me deixando desproporcional, eu não fiz nenhuma escolha, eu não aceitei nenhuma solução, porque o que está quebrado está quebrado, não só da parte alheia - não tão alheia - mas aqui em mim. Eu sou um tipo desprovido de soluções, se as coisas
acontecem eu deixo acontecer porque é impossível levantar e tomar uma
atitude defensiva e se eu escrevo eu converso com minha melhor parte
que é aquela que lê somente e aceita o que os dedos pingam, não tenho muito o que falar, tenho um sentimento horrível e nada me consola, nenhuma expectativa me move, nenhuma graça me faz contente, uma
coisa se partiu e eu tenho também muita vontade de nunca mais falar de
mim, de nunca mais dar moradia, só que eu sei que isso sempre vai
acontecer. Tento achar uma canção ou um livro ou mesmo uma rua que me dê alegria, queria ser inacabada mas tenho tudo pronto dentro de mim e o que se faz com o que se tem mesmo?
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