Monday, February 06, 2012

Quanto tempo faz.

"Assim magro, molhado, meio curvo de magreza, frio e estranhamento." (CFA)


Contido, dissimulado, observo lento o passar dos dias por detrás da figueira, que – imagino – deve acumular mais anos do que meus dedos podem contar. Mas, se você olhar bem de perto, talvez tenha a impressão de que é uma figueira muito familiar. Só o que aparentemente você não sabe é que vez ou outra ela observa a você também.
Claro que neste lugar, entre colunas de cimento e cercas enferrujadas, fica quase impossível ocupar-se com algo que não seja observar pessoas. Mas, cá entre nós, a figueira bem que gosta de olhar pra você. Ou seria por você? Eu não sei, porque ela nunca me diz, ela nunca diz coisa alguma às pessoas que possa ferir ou magoar. Tenho pensado que deveria pedir a ela algum dia como se faz, isso de não ferir, já que ferimos tanto. Mas não peço nada.
Começa a chover, e enquanto a água escorre pelo seu tronco miúdo, observo encolhido por debaixo das colunas – e disso mal sabe ela – que torna-se solitária e pensativa, como um salgueiro-chorão na beira de um rio. São em dias de chuva como este que muitas de suas folhas caem, encobrindo figos maduros que amanhã encontrarei podres, como estes restos desbotados do que um dia deve ter sido uma flor, como tudo o que um dia foi bonito e inteiro e agora já não é mais. Alguns figos caem ao chão, formando pequenas marcas na terra, quando lembro, também solitário e pensativo, que outra vez não terei o que comer.
Só percebo que adormeci quando uma folha bate em minha cara suja e molhada, e por um momento quase não sei dizer onde estou. Não chove mais. Com esforço, levanto-me para tentar encontrar alguns figos inteiros, e então uma gota de água cai sobre mim. Pela gota posso sentir, com culpa – uma culpa lavada, mas com o mesmo peso – que se dói toda, a figueira. Afasto-me, finjindo não prestar atenção, e de longe posso vê-la a encantar passarinhos e abelhas com seu perfume adocicado, quase contente outra vez. Penso rápido: não se pode lutar contra a própria essência. Sei que me observa, assim como a cada um dos que passam, e sei que, no fundo, ela gostaria de dizer que isto que sinto agora também passará. Mas não diz nada.
Lembra quando você me dizia que tudo ia melhorar, que era só uma questão de tempo? E eu tomava aquelas cápsulas. Quando você pegava na minha mão e olhando nos meus olhos dizia com toda a convicção do mundo que nunca iria sair do meu lado? E então eu puxava o gatilho com medo. Quando você me dizia que eu só precisava me acalmar, e não pensar em mais nada, que o sono viria leve e fácil? E eu dormindo no pé da figueira todo esse tempo e pensando.
Que a cada dia o céu está mais dramático e as nuvens - como ovelhas, como espirais de mármore, como se este céu também estivesse apodrecendo - ficam maiores. Que eu decidi pelo afastamento dos últimos amigos. Que eu fui anulado e minha seiva congelou em pequenos canais. E que até em frente ao espelho eu fui sendo alguém diferente.
Eu acho que a figueira fica triste quando chove e você não pode correr comigo pra debaixo das colunas. Acho que se aborrece com os figos que oferece a você e apodrecem no chão. Quando me olha de canto pedindo moedas na rua certamente deve pensar que se você estivesse comigo eu não precisaria inventar histórias o tempo todo. Acho que ela gostaria de dizer a você, e somente a você, algumas coisas boas e talvez até más para que você pudesse lembrar durante a sua travessia. Pra que não se doesse tanto, e nem à ela. Mas não diz nada, a figueira.
Você realmente deveria conhecê-la.


(Julia Cristina Vilabruna)

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