Wednesday, February 01, 2012

Um monstro de sensibilidade

Fascinado, contemplo o verde atento e desajustado dos meus olhos. O cigarro aceso no antigo cinzeiro reluz como um pequeno escudo contra a escuridão. Em um surto de lucidez, sei que estou sóbrio, mas e quanto a mim, quem saberá dizer quem sou?

Sou o menino-moço que brinca com soldadinhos de chumbo em pensamento, recolhendo roupas e cadernos pelo quarto antes que alguém perceba quão desorganizado sou.
Sou a criança que passeia pela rua e se perde facilmente porque acompanha o voar dos passarinhos, imaginando como seria se também pudesse ser livre como eles.
Sou o senhor sentado no banco da praça observando os transeuntes com seu olhar rígido de quem não fala mas pensa sim e até adivinha qual seria a vida mais miserável possível, se a do mendigo ou a do empresário.
Sou o jardineiro que arranca flores murchas já sem vida e planta novas na esperança de que sejam fortes o suficiente para aguentar as estações, mas quando me perguntam se tenho esperança, fico mudo pela dúvida da resposta.
Sou um zé ninguém, passo o dia bebendo e lendo histórias que sempre se repetem, querendo que a minha seja diferente mas não movo um dedo sequer.
Sou um sonhador, vivendo nos fundos de uma casa abandonada pelo tempo, eu vendo meu corpo e compro discos de bandas que não conheço, fotografias de lugares que nunca visitarei, livros de páginas tão amareladas quanto meus dedos finos entregues ao acaso.
Sou um intelectual pós moderno, meus versos queimam no fogo que se levanta por detrás da cortina e avança sobre a mesa, enquanto o vento ligeiramente sopra a poeira de palavras jamais lidas e agora para sempre incompreensíveis.

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